CANDEIAS: A CIDADE QUE ARRECADA COMO GIGANTE E ENCOLHE COMO VILAREJO
Candeias vive hoje um dos paradoxos mais dolorosos da Região Metropolitana de Salvador. É uma das cidades que mais arrecada na Bahia, com um dos maiores PIBs per capita do estado por causa do Polo Industrial e dos royalties, mas é uma das poucas que está perdendo população, fechando comércio e ficando para trás no desenvolvimento humano.
Na década de 1970, Candeias era sinônimo de progresso e esperança. Quando a Região Metropolitana começava a se desenhar, Candeias já era a quarta cidade mais habitada no entorno de Salvador, atrás apenas da capital com seus mais de 260 mil na contagem da época para a RMS, de Camaçari com 44.890 e de Lauro de Freitas. Candeias tinha 24.795 habitantes, à frente de Dias D'Ávila com 12.398 e Simões Filho com apenas 10.936.
Ser a quarta força da RMS naquele tempo não era pouca coisa. Era o reflexo da chegada da Refinaria Landulpho Alves, da abertura de estradas, do emprego. Quem vinha de fora via Candeias como a cidade do futuro, onde se ganhava bem e se construía família.
Esse futuro chegou a se confirmar em números. No seu topo histórico, entre 2010 e 2015, Candeias chegou a 84 mil habitantes nas estimativas do IBGE, com pico de 88.806 em 2015. Era uma cidade que crescia, que atraía gente de São Sebastião do Passé, de Madre de Deus, do interior.
Aí veio o choque. O Censo de 2022 cravou: 72.382 habitantes. Uma perda de 10.776 pessoas em relação a 2010, uma queda de 12,96%, uma das maiores quedas absolutas da Bahia. Enquanto o Brasil crescia 6,5% no mesmo período, Candeias encolhia 11,33% como você bem apontou.
Enquanto Candeias retrocede, a vizinha que nasceu menor nos ultrapassou como um foguete. Camaçari, que tinha 44.890 habitantes nos anos 70, hoje já passou de 300 mil pelo Censo e beira 600 mil com população flutuante do Polo Industrial. Virou metrópole industrial, com shopping, universidade federal, hospital de grande porte.
Simões Filho, que tinha 10.936 habitantes quando Candeias tinha quase 24 mil, hoje tem mais de 114 mil. Lauro de Freitas explodiu para mais de 200 mil. Dias D'Ávila, que tinha 2.398, hoje tem mais de 80 mil e já passou Candeias. A lógica da RMS foi de expansão. Só Candeias fez o caminho inverso.
E quando a gente olha para o lado, para São Sebastião do Passé, o espelho é ainda mais assustador. A mesma dependência da indústria do petróleo, a mesma queda de arrecadação repassada, o mesmo esvaziamento do centro. É o retrato do que acontece quando uma cidade não se diversifica.
O dado mais cruel não é só populacional. É o IDH. Candeias tem um IDH de 0,691, considerado médio, mas baixo para uma cidade que está entre as 10 que mais arrecadam na Bahia. O salário médio formal é de pouco mais de 2,5 salários mínimos, mas com enorme concentração de renda no Polo. Fora do Polo, o rendimento cai drasticamente.
Esse é o ponto central: Candeias está entre as que mais arrecadam, mas está fora da expansão do desenvolvimento. A cidade arrecada ICMS, royalties, ISS de grandes empresas. O orçamento passa de R$ 600 milhões por ano. Mas esse dinheiro não se transforma em retenção de gente.
Não se transforma em saneamento básico universal, não se transforma em um centro comercial forte, não se transforma em faculdade pública, em hospital de alta complexidade, em parque industrial diversificado. O dinheiro entra e sai, mas não fixa o morador.
O resultado está na rua. O comércio da Avenida 7 de Setembro, da Urbis, do Centro, fechando. Lojas tradicionais que viraram ponto de aluguel. O jovem que termina o ensino médio e vai embora para Camaçari, para Simões Filho, para Salvador, porque aqui não tem emprego qualificado fora da refinaria e das terceirizadas.
A Bahia está em franca expansão no desenvolvimento. O interior com agronegócio crescendo, a RMS com logística e serviços, o Litoral Norte com turismo. O PIB baiano cresce acima da média nacional. Candeias, no entanto, está na contramão, encolhendo em todos os segmentos do município: indústria, comércio, serviços, construção civil.
Por que as pessoas estão saindo? Primeiro, falta de perspectiva. Segundo, violência e falta de infraestrutura urbana que empurram famílias para condomínios em Lauro e Camaçari. Terceiro, a cidade não criou um plano B para o petróleo. Quando a Petrobras reduz investimento, Candeias sente na hora.
É preciso encarar que população é voto de confiança. Quando uma cidade perde 11% da sua gente em 12 anos, ela está perdendo o voto de confiança dos seus próprios filhos. Ninguém abandona a terra onde nasceu por acaso. Abandona por falta de oportunidade.
Candeias precisa urgentemente de um choque de gestão voltado para gente, não só para arrecadação. Precisa transformar royalties em educação técnica, transformar a vocação industrial em polo de manutenção, de energias renováveis, de logística. Precisa requalificar o centro, criar distrito comercial forte, trazer moradia popular de qualidade para segurar o trabalhador.
Caso contrário, vamos continuar vendo a história se repetir: uma cidade rica que empobrece seu povo, uma cidade que arrecada como gigante mas que encolhe como vilarejo. Candeias não pode aceitar ser apenas um lugar de passagem entre Salvador e o Polo. Ela já foi a quarta maior da RMS. Ela pode voltar a crescer, mas para isso precisa decidir se quer ser apenas arrecadadora ou se quer, de fato, ser uma cidade para morar.
